terça-feira, dezembro 18, 2007

Mais um trabalho final usado como post...

Cidade, City, Cité. Parafraseando Cid Campos e Augusto de Campos, damos início a nosso ensaio audiovisual sobre "as rasuras da modernidade no espaço da metrópole". Usando três palavras que designam o mesmo objeto lado a lado, acreditamos não incorrer em qualquer tipo de redundância, pois da mesma forma que Estados Unidos, Paris e Alpes são lugares completamente distintos, cada metrópole tem suas próprias rasuras. Num tom indefinido, alguma coisa entre o cinza do concreto, as cores pálidas da cidade e o amarelado típico do que é envelhecido, apresentamos a multidão confusa e o tráfego borbulhante se apropriando e invadindo os bulevares em ritmos descontínuos e fluxos assimétricos.

A câmera, quase sempre distante, é de quem observa a cidade e seu horizonte imperfeito com nostalgia do que ainda não deixou de ser. Do alto vemos a massa. De perto, constatamos que ainda existem pessoas na metrópole, e que algumas ainda insistem em ignorar o barulho, o caos, e toda a confusão do mundo ao seu redor. Jogam xadrez, sentam e esperam o que nem elas mesmas sabem, tentam organizar o trânsito, como se pudessem se subtrair daquele espaço desordenado.

A metrópole é assim: momentos de silêncio, períodos de sons irritantes e indistinguíveis. E se há os que tentam organizar a metrópole por meio da ação, há os que tentam faze-lo pela palavra. Dizem da metrópole como se fossem alheios a ela. Fazem previsões catastróficas, ou não vêem além do óbvio ululante. Como dois pássaros no alto de um prédio, vêem o emaranhado de carros na hora do rush, mas não se afetam por ele, ou então conferem tanta atenção aos automóveis que não conseguem ver o carrinho de pipoca do outro lado da rua, solitário e estático, como são as pessoas na metrópole.

domingo, outubro 28, 2007

'bout music and love

*Para Lalá

Lá diz:
aqui, vc não vai escrever mais nada no seu blog não?
Fernanda diz:
vou
sobre o q vc quer q eu escreva?
Lá diz:
uai, quem pensa o q escrever é vc, eu só leio e comento
Fernanda diz:
mas hj eu deixo vc escolher sobre o q eu vou escrever
promoção, aproveita
Lá diz:
escreve sobre o q vc tava me falando antes, que a gente aprende a amar
ou sobre música; ou os dois

Sobre música
Acabo de voltar da ópera. "O homem que confundiu sua mulher com o chapéu". Uma ópera minimalista, apenas três atores (cantores?), cenário simples, orquesta ritmada, composição enxuta e muitas imagens nos telões. O nome é esdrúxulo, mas a história é legal. Um músico que sofre de agnosia, uma doença que o faz enxergar apenas formas, cores e movimentos. Sem pode contar com a visão, passa a guiar sua vida através da música e tem canções para comer, dormir, vestir... Foi a primeira vez que assisti a uma ópera. Gostei da experiência. Só não gostei de as legendas serem projetadas num telão a 4 metros da minha cabeça.

Sobre aprender a amar
Durante a ópera, minha mãe se lembrou da vez em que foi ao Palácio das Artes assistir Saulo Laranjeira com meu pai. Quando chegamos em casa, resolveu ligar para ele e, não sei o que me deu, pedi para falar com ele, só para dar um "oi". Não sei quanto tempo havia que não nos falávamos, mas havia muito tempo. Não é que nos odiássemos, nem nada assim. É só que pensamos um pouco diferente e sempre acabávamos discutindo ao telefone. Silenciosamente, fizemos um pacto de silêncio. Não nos falávamos, para evitar conflitos, exatamente porque nunca deixamos de amar um ao outro. Hoje nos falamos e não houve conflito. Foram apenas alguns minutos, suficientes para ele perguntar por toda a família e para eu contar que estou trabalhando na secretaria de cultura do estado. "Não consigo imaginar", ele me disse. "Na minha cabeça você ainda é uma garotinha de 14, 15 anos". Foi a última vez que nos vimos. Comentei que em julho de 2009 me formo. Ele disse que que vem. Quem sabe até lá não nos falamos mais algumas vezes?

sexta-feira, agosto 10, 2007

Sobre balões e amigos


Enquanto decidia se escrevia sobre a coisa estranha que sentira enquanto estava no shopping ou sobre a distância repentina que sentia de pessoas próximas, lixava as unhas e escutava suas músicas preferidas (as melancólicas, que sempre tocam no momento mais inconsolável do filme).

A questão é que fora passear no shopping e, no meio da escada rolante, olhou para uns balões no andar superior e desvendou o mistério da vida. Eram balões metálicos, em forma de golfinho ou algum personagem de desenho animado. Apenas flutuavam estáticos, presos por uma corda. A escada no meio do nada, os balões sorrindo e as pessoas vivendo.

A outra questão era que não reconhecia mais ninguém. Sentia-se distante o tempo todo. E sempre que chegava naquele prédio, que foi o começo da parte mais interessante de sua história, sentia vontade de voltar no tempo, ou simplesmente sair correndo. Não é que não visse mais ninguém. Mas não sabia explicar. Agora apenas ia lá e não entendia mais para quê.

Por fim decidiu não escrever sobre nada. Terminou de lixar as unhas e continuou ouvindo as mesmas músicas, enquanto tentava fazer o que faziam as pessoas e os balões: viver e sorrir.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Insônia


Tinha medo daquela hora em que todas as luzes se apagavam e toda a rua ficava silenciosa. Era como se, de repente, alguém falasse: hora de dormir! E por isso ela não conseguia. E ficava acordada (como quando se é criança e alguém te manda ficar sentado, e só de pirraça você levanta). Então apagava a luz. Acendia de novo. Colocava uma música pra tocar. Desligava. Bebia água. Contava carneirinhos - eles sempre batiam a cabeça na cerca, e se pulassem mais alto, a cerca aumentava de tamanho. Virava para um lado. Para o outro. Abria a cortina. Fechava a janela.

Por descuido, adormecia. Mas depois de alguns minutos de sono, era como se lhe faltasse ar. E acordava assustada. Ou então tinha pesadelos. Nunca lembrava exatamente o quê. Mas acordava assustada. E quando tentava adormecer mais uma vez... Mais uma vez o ar lhe faltava.

Então, depois de uma longa batalha contra a noite e o silêncio, quando finalmente conseguia dormir em paz, o sol mostrava que ia nascer, e era de acordar...

sábado, junho 30, 2007

Quanto mais simplicidade...


Coisas que a gente lê e precisa dividir com o mundo:

Pegava Eduardo pelo braço, levava-o para o banheiro. Seu rádio, pequeno e barato, só funcionava no banheiro, em cima do aparelho sanitário. Sem se preocupar em descobrir a razão, o velho escutava música sentado no bidê.

- Deve ser por causa do encanamento que serve de antena - explicou-lhe Eduardo um dia.

O velho Germano fitou-o longamente, desligou o rádio, levou-o para fora do banheiro.

- Por isso é que você não vai para a frente, meu filho. Entende as coisas demais, quer encontrar explicação para tudo. Era tão simpático da parte dele, só tocando onde bem entendesse. Então minha privadinha é uma antena? Você criou um problema para mim.

-Me desculpe.


(In: SABINO. Fernando. O encontro marcado. Rio de Janeiro: Record. 2007. pg. 182)