quinta-feira, dezembro 09, 2010

Ainda era cedo, my dear

Fiquei tentando lembrar o som da voz dele. Como era mesmo a sua voz? Como era mesmo que ele falava? Nove anos depois, não consegui. Talvez eu nunca vá saber. Quando a gente se conheceu, eu tinha 14 anos, ele 11, o Luiz 10 e o Adan 9. Eram todos menores do que eu.

Depois disso, falamos pouco pela internet. Tudo que eu sabia fiquei sabendo pelas fotos do Orkut. Não se referia ao nosso pai como tal. Tinha raiva e esse geralmente era nosso assunto. Qualquer hora do dia ou da noite que eu entrasse no MSN ele estava lá, mas eu nem prestava muita atenção em suas mensagens.

Estava na farmácia na hora que meu pai ligou. Sexta à tarde. Ele nunca liga, mas não pensei que pudesse ser notícia ruim.

- O Yuri, seu irmão, lembra dele? Ele morreu. Acham que foi suicídio.

Não reagi instantaneamente. Desliguei o telefone e alguns segundos depois comecei e chorar, sem nem saber direito por quê. A balconista me deu água. Liguei pra minha mãe. Ela não falou nada. Voltei a chorar. Paguei os remédios e saí correndo dali, em direção ao banheiro. Depois disso, chorar foi só o que eu soube fazer, pelo resto do dia.

Ele tinha 20 anos. Foi encontrando dentro de um carro. O atestado de óbito diz que morreu por inalação de gás carbônico. Deixou uma carta que até hoje ninguém leu, a não ser a polícia.

À noite liguei pro meu pai, perguntei quando seria o enterro e disse que queria ir. Ele estava nos Estados Unidos. Era caro e burocrático trazer o corpo. Mudou para lá com a mãe e o Luiz há cinco anos. Luiz e a mãe voltaram, ele ficou com o irmão mais velho, que não era meu irmão.

O corpo só chegou depois de 20 dias. Ontem. Saí de Brasília às 5h com meu pai e a Kélvia, outra meia irmã, irmã de mãe da Karla, da Karolina e da Kenia. Chegamos em Caldas Novas às 10h, direto para o velório. Ele e meu pai nunca se deram bem. Ultimamente nem se falavam. Mas pouco antes de fazer o que fez, tentou de várias maneiras falar com ele.

Luiz ficou o tempo todo comigo e com a Kélvia. Tudo que a gente queria era saber o porquê. Disseram que era inteligente e palhaço. Tinha um blog de poesias em inglês.Mesmo morto, dava para ver que era um menino lindo. Tinha um nariz perfeito, as sobrancelhas bem feitas. Era maior que o meu pai. Kelvia nunca chegou a conhecê-lo. A primeira vez que viu seu rosto foi dentro do caixão.

Depois do enterro, fomos à soverteria, enquanto meu pai autenticava a cópia da certidão de óbito. Sentada ali, com a Kélvia e o Luiz, eu entendi como é ter um irmão. Foi assim, de repente. Descobri que eu me enganei a vida inteira. Ao contrário do que eu pensava, eu me importava e muito com meus irmãos. Eles me fazem falta.

Nos últimos 20 dias tudo que fiz foi tentar entender porque eu sofria tanto pela morte de alguém que eu não conheci direito. Pensei na minha família torta, nos 10 filhos que me pai distribuiu pelo país, entre 5 mães. Pensei no que o Yuri pensava de mim. Da última vez que nos falamos, eu nem dei bola para ele. Foi em março. Agora eu nunca vou saber como era sua voz.

....

Minha mãe se mostra indiferente. Meus amigos acham minha reação exagerada – se nunca nem falei do Yuri para eles. A verdade é que nem eu entendo. E acho que ainda vou demorar para entender. O que fica na minha cabeça não é só a morte, a escolha, o ato. É minha família. É como venho lidando com tudo isso até hoje.

Tive dó do meu pai, tive pena do Luiz, mas choro pelo que eu mesma sinto. Me sinto pequena, impotente. Sinto que tudo de que eu reclamo é muito pequeno. Sinto que preciso contar pra todas as pessoas o quanto eu gosto delas. Sinto que eu não queria ter descoberto assim o quanto eu queria ele de volta. A vontade que me dá é proibir toda pessoa que eu gosto de morrer, por qualquer motivo que seja. Quando meu avô morreu, não fiquei assim. Mas o Yuri tinha 20 anos e fez uma escolha.

Mais cedo, quando o avião começou a decolar, eu comecei a chorar. O cara do meu lado me olhou. Falei para ele que não era medo do avião. Eu estava voltando do enterro do meu irmão, que havia se suicidado aos 20 anos (como é difícil dizer isso sem encher os olhos de lágrimas). Mostrei para ele o santinho: “olha como ele era lindo”.

Ontem foi o dia mais triste e mais especial da minha vida, porque ontem eu descobri que sou irmã. Foi do jeito mais difícil. Mas agora eu sei. E, mais do que um abraço, eu queria poder ouvir a voz dele.


Fique em paz, meu irmão.

terça-feira, outubro 20, 2009

Unexplainable

Para muita gente poderia ser só uma foto. Só mais uma foto. Só uma foto especial. Para mim é algo que se verte em lágrimas. A foto que esperei a vida inteira para tirar: finalmente na minha mesinha. Entre o mini cactus e a garrafinha com uma mensagem dentro. Poderia ter um enquadramento melhor, uns sorrisos mais espontâneos. Pouco importa, está ali. E não me canso de olhar. Me sinto novamente com oito anos de idade, voltando do shopping com um par de patins, depois do almoço na churrascaria e do melhor sorvete de morango do mundo.
...
Foi simplesmente perfeito. Eu com medo de entrar no auditório antes da minha mãe chegar, descendo a escada olhando para todos os lados e sem ver ninguém. E no fim do corredor, um som, um gesto que nem entendi direito me fizeram olhar para trás. Era ele! Eu mal podia acreditar. Até coloquei a mão na boca com a surpresa. Depois fiquei olhando lá de cima. E no fim de tudo, naquele mar de gente, um abraço fez seis anos parecerem um feriado...

domingo, fevereiro 08, 2009

domingo, janeiro 11, 2009

Prognóstico

A paciente Fernanda Cristo e Santos apresenta sinais de psico independência multi-focal desorientada afetivo retrógrado oscilante. Alterna períodos de timidez, verborragia e humor tal qual cor do cabelo e comprimento da franja. Demonstra episódios criativos intensos, manifestos em apresentações teatrais com traços surreais e abstratos, escrevendo textos hilário-irônico-depressivos ou cantando alguma música trash semi-afinada no volume 10, interpostos por períodos de inércia autista e revolta com a humanidade. Apresenta grande desorientação espacial e pessoal com fortes tendências a andar na contra-mão. Gosta de cachorro e tem alergia. Gosta de dormir e tem insônia. Gosta de companhia, mas cansa. Gosta de música que ninguém mais gosta. Queixa-se de saudades inexplicáveis, medos inconsistentes, timidez incoerente e incompreensão relativa. Relata possessões espirituais maléficas após algumas doses de vodka. Não come feijão e separa todo e qualquer elemento verde da comida. Vira levemente o pescoço para o lado direito enquanto fala, pigarreando, geralmente sem saber o que fazer com as mãos. Tem dias que se acha verde. Noutros, lilás. Por fim se convence que ser simplesmente morena, mulher, brasileira, filha única com oito meio-irmãos e jornalista já pode ser bastante complexo.

por Tatiana Monteiro

sexta-feira, janeiro 02, 2009

Deixa pra lá...


Ano novo: a mesma velha história. Velhos pequenos problemas. Cabeça doendo, coração batendo por bater. Cada vez menos vontade – de qualquer coisa – e já até ouviu dizer que isso era bom. Cada pensamento uma dor, cada gesto um excesso, cada palavra desnecessária. A mesma velha ladainha. Pra que repetir?

Desculpa! Eis o que sempre é preciso dizer. Mas não muda nada, não faz esquecer. Promessas (quem quer ouvir?). Nunca são compridas, melhor nem falar. Inveja de um caracol. Desejo de se esconder, se encolher, ser esquecido. Existência supérflua. Foi sempre assim. Pra que repetir?

quinta-feira, novembro 20, 2008

Surreal

Do livro Joan Miró - A cor dos meus sonhos - Entrevistas com Georges Raillard:

Georges Raillard - Você cortou essas lixas, por assim dizer, num gesto raivoso. E a matéria dessas duas manchas castanhas, espessas, que se repetem simetricamente nas duas folhas, lembra excremento.

Joan Miró - Sim, sim, é merda. Eu estava aqui, me deu vontade de cagar, baixei as calças e, pronto, caguei nas lixas amarelas novinhas. E depois, plaft! apertei o outro papelão em
cima. Deixei assim e deu essa bela matéria. Quem sabe, eu não devesse dizer, pois os marchands... Pra mim, isso não é uma provocação, como aquele italiano que fez latas de conservas e colcou uma etiqueta: Merda de Artista. Não. É uma bela matéria, uma bela matéria. E agora trabalho nas três ao mesmo tempo.

domingo, setembro 28, 2008

Confidência montesclarense

Saudade de uma casa cheia
Entre e sai de gente, movimento
Lembrança de boas risadas
Barulho, histórias, brigas

Saudade inexplicável
de almoço de domingo
cachorros pedindo comida
briga pra mudar de canal

vontade de ouvir voz de gente
de ter pra quem cantar
de ter quem incomodar
de atender a campainha

telefone tocando sem parar
panelas em cima da mesa
mesa grande, sala grande
sofá lotado

domingo, setembro 21, 2008

Era uma vez

Uma das histórias que mais gosto de contar é a do meu pai: Redenir. Mas para contar a história dele, tenho que começar pela história dos meus avós. Geraldo e Raimunda. Ele, nordestino, ela, paranaense. Tiveram seis filhos: Redenir, Reginaldo, Regina, Renilde, Rosali e Rosemary. Pouco depois do golpe militar, mudaram-se para Campos Belos, divisa do Goiás com o Tocantins.

Foi lá que Redenir passou a infância. Depois mudou-se para Brasília e fez o que fazem todos os seres vivos: reproduziu. Kênia, Kélvia, Karoline e Karla vieram quase em seqüência. Mais tarde, não sei bem como, muito menos porque, foi parar em Belo Horizonte, pra estudar engenharia civil, e deu vida a Naiara Ximene, que engravidou com 15 anos e nunca mais foi vista por ele.

Antes mesmo de terminar o curso, foi trabalhar numa obra em Janaúba, no norte de Minas. Conheceu uma engenheira e teve a quinta filha: Fernanda. Nasceu em Montes Claros, mas com dois anos foi levada para Caldas Novas, em Goiás. Foi lá que nasceram Iuri Jivago e Luiz Gustavo, filhos de uma quarta mulher que agora mora nos Estados Unidos.

Por fim, Redenir foi morar no Amazonas, na fronteira do Brasil com a Colômbia. Conheceu outra mulher e teve mais um filho: Adan. Lá de longe, ainda registrou o Gabriel, filho adotivo da mãe de Kênia, Kélvia, Karoline e Karla.

Flowers in the window


Simplesmente feliz... Felicidade calma. Há tempos não se sentia assim.

Nada pra comemorar. Nada especial. Nenhum acontecimento extraordinário. (E ainda era domingo e o tempo estava nublado). Era como se, de repente, estivesse no lugar certo, na hora certa. O lugar era o mesmo. A hora não. A hora agora passava devagar. Os ponteiros do relógio não estavam mais rodando com aquele ar de deboche. Não precisava correr atrás de nada: só aquele instante era suficiente.

(...) Na verdade, havia sim um acontecimento extraordinário. É que ela agora sabia que podia ser o que quisesse. E que tinha sim todos os amigos que precisava. Cada um em seu lugar. Cada um com seu encanto. E nada mais ia lhe abalar. Era só ela: livre, feliz.

terça-feira, agosto 26, 2008

Todas essa coisas (ou um texto sobre o "já)


Eu já morei em tanta casa que eu nem me lembro mais. E pode ser que mês que vem eu mude de novo... Já morei com meu pai, mas não lembro como foi. Já morei com minha mãe, depois sem ela, agora com ela e daqui a pouco sem ela de novo. Já quase tive uma irmã de verdade, mas ela esqueceu de abrir os olhos depois que nasceu. Já tive amigas que hoje eu nem vejo mais. Já tive um poodle que morreu de leishmaniose. Depois um Yorkshire que foi tosado e virou um Schnauzer. Agora só tenho uma cachorro de pelúcia anti-alérgico.

Já pesquei jacaré no rio Negro e vi o encontro dele com o Solimões. Já tive cabelo vermelho, metade-louro, metade-roxo e depois cansei. Já fui melhor aluna da sala e aluna-problema do colégio. Já gostei de Sandy e Junior e já li Capricho. Já fiz terapia, já brinquei na rua e já bati o carro. E até hoje ainda tenho um pouco de medo de dirigir.

Nunca fui acampar. Nunca fui dama-de-honra. Nunca comi açaí. Já chorei porque não tirei dez na prova. Já chorei de saudade e até assistindo sessão da tarde. Já quis ser popular e já fui em micareta. Já quis sumir depois de uma festa e já achei que todo mundo ia lembrar pra sempre do que eu tinha feito. Hoje nem eu lembro mais.

terça-feira, agosto 12, 2008

Êta vida besta

Acabara de acordar e só ouvia um burburinho. Deviam ser as pessoas no quintal – sua janela dava para lá e sempre depois de uma grande festa a família se reunia no dia seguinte, pra contar os causos da noite anterior e comer tudo que sobrava. Esperou um pouco na cama até o mau-humor matinal passar. Tirou o pijama, foi ao banheiro lavar o rosto e juntou-se aos outros. Contavam histórias da tia que ficou bêbada e chamou um rapaz de bicicleta pra entrar na festa – lá pelas 3 da manhã... Agora de perto, o burburinho se transformava em barulho e agitação de pessoas falando alto, rindo alto e disputando a vez de falar.

Enquanto isso na cozinha, a avó esquentava o arroz e cantava uma de suas cantigas da igreja. Toda hora alguém entrava e pedia um talher, ou um copo. A avó entregava e continuava cantando. As crianças corriam, os cachorros pediam comida. Um deles, o mais perspicaz, olhava ao redor esperando alguém se distrair: pulou no prato de um menino que saiu chorando. Foi expulso aos xingos. Amanhã era segunda-feira e todo mundo ia embora de novo. Fazia tempo que a família não se juntava assim. Ela só ouvia os causos, ainda com sono e preguiça de falar. Mas era bom estar ali.

quinta-feira, julho 31, 2008

As ugly as I seem


Fernanda é uma dessas pessoas que acha que é diferente, mas é igual. Sempre tem vontade de ir pra mais longe, de sair correndo ou até voando, mas quando chega do outro lado sente vontade de voltar. Sempre se sente só, mas quando muito acompanhada tem vontade de fugir. Às vezes sente vontade de sumir, nem sabe bem porquê. Às vezes se acha interessante – gosta de músicas que poucas pessoas gostam, vê filmes que muita gente não viu e freqüenta museus. Na maioria das vezes acha que não faz diferença nenhuma no mundo. Às vezes se cansa dos amigos. Depois cansa de si mesma. Sente-se incompreendida, mas também pensa que talvez não saiba mesmo explicar. Às vezes tem idéias mirabolantes e vontade de se movimentar. Na maioria das vezes é vencida pela inércia. Tem muitas vontades de não-sabe-o-quê. Num dia faz regime e no outro decide que gosta de comer. Num dia quer ser saudável, fazer caminhada e comer frutas. No outro quer voltar às 6 da manhã. Gosta de dormir, mas sempre tem insônia. Às vezes fala sem pensar. No resto das vezes é irônica. Gosta de piadas infames e desenho animado. Tem saudades e chora. Toma vacina pra alergia uma vez por semana. Não gosta de crianças, mas gosta de cachorros. Às vezes se sente feliz. Nas outras vezes se sente só. O último exemplar de alguma espécie.

domingo, junho 08, 2008

Jogo da vida


Você pode formar na faculdade ou passar pelo outro lado do tabuleiro. Pode ter cinco filhos ou nenhum. Pode acabar milionário ou falido, pode achar petróleo e perder tudo apostando na roleta. Mas aconteça o que acontecer, você tem que pagar seus impostos e parar no dia do casamento. Na maioria das vezes, você queria o carrinho azul, mas só sobrava o vermelho. Quando ninguém estava olhando, você jogava o dado de novo e ganhava cavalos premiados. E quando o jogo acabava, achava sem sentido atravessar todas as casinhas contando só com a sorte, como se toda a sua vida pudesse ser decidida apenas com um dado. Então talvez fosse melhor jogar War – no fim, as coisas também eram decididas pelo dado, mas na caixa estava escrito “jogo da estratégia”. O problema era que, no meio do jogo, alguém sempre achava que havia um complô e jogava as pecinhas de todo mundo pro ar. A única opção então era algum jogo de cartas. Mas sempre tinha alguém que não sabia as regras e, na hora da explicação, outro alguém sempre discordava da utilidade de uma carta. Às vezes um terceiro alguém se cansava da confusão e ia embora. Às vezes esse alguém era você. Mas mesmo com as discussões, a gente insistia em jogar de novo outro dia. Até o dia em que a gente entendeu o que eram os impostos e a guerra do Oriente Médio. Se todo mundo ia discutir no final, melhor nem jogar. Se as pecinhas iam todas para o ar no meio do jogo, melhor nem arrumar o tabuleiro. Não que o jogo não fosse mais divertido, nem que as brigas não pudessem ser resolvidas. Mas a velha sensação de saber como tudo ia acabar, a clara impressão de que alguém ia apelar antes do final, a possibilidade de ser vítima ou parte de um complô, tudo isso dava vontade de deixar os jogos guardados no armário, esperando o tempo passar enquanto se juntava coragem para mais uma discussão.

domingo, março 30, 2008

La belle mer


Talvez ela sempre soubesse que ia ser assim. Mas quis se arriscar mais uma vez. Afinal, ficar sentada na areia vendo as ondas irem e virem não era assim tão ruim. Mas não comparado à aventura de enfrentar o mar. Aquela água inquieta tentando derrubar tudo que vem na direção contrária, aquele chão instável que, vez ou outra, ainda tinha uma alga chata pra incomodar, o sal enrugando ainda mais a pele...

Mas ela já sabia que nunca se dava bem com o mar. Nunca conseguia vencer as ondas, acabava sempre levando mais um caldo. Mas quis insistir. Pensou que se tomasse cuidado talvez conseguisse enfrentar todos os obstáculos e sair ilesa da água. Cansou da areia e pensou que era hora de tentar de novo.

E até achou que estivesse indo bem... Quando o chão embaixo de seus pés se desfez pela primeira vez não desanimou, continuou em frente, enfrentando as ondas. Mas a maré começou a subir, as ondas ficaram mais fortes e o caldo foi inevitável. Então se convenceu de que realmente não sabia lidar com toda aquela água ao seu redor. Resolveu que não ia mais voltar. A areia, na verdade, era melhor. E ela e o mar nunca iam se entender. (Pelo menos até ela se cansar da areia mais uma vez...)

terça-feira, março 25, 2008

Pequenos milagres



Quando eu era pequena, não gostava muito de chocolate. Só comia alguns bombons, daqueles com bastante recheio. E eu sempre ganhava muitos ovos de páscoa. A maioria da família, mas também alguns de presente de aniversário. Ficava sem saber o que fazer com eles. Acabava comendo os bombons que vinham dentro do ovo e distribuía o resto entre os primos e a minha mãe.

Não me lembro quando comecei a gostar de chocolate puro. Mas esse dia chegou e, quando isso acontecem, os ovos sumiram. Esse ano ganhei só um, de aniversário, mas era branco e não me deixaram trocar na loga ("não trocamos chocolate, me disse a moça da loja de chocolates). Como ainda não gosto de chocolate branco (que, aliás, em minha opinião, nem chocolate é) e acho que nunca vou gostar, relembrei a minha infância e doei meu único ovo para a minha mãe. Em troca ela comprou bananas, mangas, maçãs, melancia, laranjas... Algumas pessoas me disseram que assim era bem melhor pra mim, mas não deixei de me sentir frustrada pela falta de ovo.

O domingo de páscoa passou e já na segunda-feira (uma segunda que, além de típica, era chuvosa), voltava pra casa de ônibus quando uma moça com uma pasta se aproximou. Ela estava em pé e eu sentada, logo me ofereci pra carregar seu objeto. Depois a moça se sentou e dessa vez uma mulher com três sacolas se aproximou. Segurei as sacolas até ela descer e então veio a terceira moça com sacola (dessa vez era uma só, preta e bem pesada). Novamente me ofereci pra carregar a sacola.

A moça era quase uma senhora (aparentava uns trinta e alguns anos), usava uma blusa amarela das lojas pernambucanas, bermuda jeans e all-star preto. Quando seu ponto chegou, tirou da bolsa um ovinho embalado num papel vermelho e me ofereceu.

- Pra você se distrair até chegar em casa.

Com o sorriso de uma criança que acaba de ganhar um Kinder Ovo tamanho 20 eu agredeci. A moça foi embora e não pude evitar que uma lagrimazinha tímida pulasse do meu olho para a bochecha direita. O ovo tinha recheio de licor de cereja e era muito bom. Desci no ponto final do ônibus e nem me importei com a chuva que caía, mesmo eu estando sem guarda-chuva.

Não sei se a moça me deu o ovo porque segurei a sacola dela ou se foi porque ela simplesmente gosta de distribuir pequenos ovos de páscoa para estranhos. Mas se ela conseguiu ler na minha testa "passei a páscoa sem chocolate", acho que também conseguiu ler no meu sorriso "obrigada moça, você salvou a minha páscoa!"

terça-feira, dezembro 18, 2007

Mais um trabalho final usado como post...

Cidade, City, Cité. Parafraseando Cid Campos e Augusto de Campos, damos início a nosso ensaio audiovisual sobre "as rasuras da modernidade no espaço da metrópole". Usando três palavras que designam o mesmo objeto lado a lado, acreditamos não incorrer em qualquer tipo de redundância, pois da mesma forma que Estados Unidos, Paris e Alpes são lugares completamente distintos, cada metrópole tem suas próprias rasuras. Num tom indefinido, alguma coisa entre o cinza do concreto, as cores pálidas da cidade e o amarelado típico do que é envelhecido, apresentamos a multidão confusa e o tráfego borbulhante se apropriando e invadindo os bulevares em ritmos descontínuos e fluxos assimétricos.

A câmera, quase sempre distante, é de quem observa a cidade e seu horizonte imperfeito com nostalgia do que ainda não deixou de ser. Do alto vemos a massa. De perto, constatamos que ainda existem pessoas na metrópole, e que algumas ainda insistem em ignorar o barulho, o caos, e toda a confusão do mundo ao seu redor. Jogam xadrez, sentam e esperam o que nem elas mesmas sabem, tentam organizar o trânsito, como se pudessem se subtrair daquele espaço desordenado.

A metrópole é assim: momentos de silêncio, períodos de sons irritantes e indistinguíveis. E se há os que tentam organizar a metrópole por meio da ação, há os que tentam faze-lo pela palavra. Dizem da metrópole como se fossem alheios a ela. Fazem previsões catastróficas, ou não vêem além do óbvio ululante. Como dois pássaros no alto de um prédio, vêem o emaranhado de carros na hora do rush, mas não se afetam por ele, ou então conferem tanta atenção aos automóveis que não conseguem ver o carrinho de pipoca do outro lado da rua, solitário e estático, como são as pessoas na metrópole.

domingo, outubro 28, 2007

'bout music and love

*Para Lalá

Lá diz:
aqui, vc não vai escrever mais nada no seu blog não?
Fernanda diz:
vou
sobre o q vc quer q eu escreva?
Lá diz:
uai, quem pensa o q escrever é vc, eu só leio e comento
Fernanda diz:
mas hj eu deixo vc escolher sobre o q eu vou escrever
promoção, aproveita
Lá diz:
escreve sobre o q vc tava me falando antes, que a gente aprende a amar
ou sobre música; ou os dois

Sobre música
Acabo de voltar da ópera. "O homem que confundiu sua mulher com o chapéu". Uma ópera minimalista, apenas três atores (cantores?), cenário simples, orquesta ritmada, composição enxuta e muitas imagens nos telões. O nome é esdrúxulo, mas a história é legal. Um músico que sofre de agnosia, uma doença que o faz enxergar apenas formas, cores e movimentos. Sem pode contar com a visão, passa a guiar sua vida através da música e tem canções para comer, dormir, vestir... Foi a primeira vez que assisti a uma ópera. Gostei da experiência. Só não gostei de as legendas serem projetadas num telão a 4 metros da minha cabeça.

Sobre aprender a amar
Durante a ópera, minha mãe se lembrou da vez em que foi ao Palácio das Artes assistir Saulo Laranjeira com meu pai. Quando chegamos em casa, resolveu ligar para ele e, não sei o que me deu, pedi para falar com ele, só para dar um "oi". Não sei quanto tempo havia que não nos falávamos, mas havia muito tempo. Não é que nos odiássemos, nem nada assim. É só que pensamos um pouco diferente e sempre acabávamos discutindo ao telefone. Silenciosamente, fizemos um pacto de silêncio. Não nos falávamos, para evitar conflitos, exatamente porque nunca deixamos de amar um ao outro. Hoje nos falamos e não houve conflito. Foram apenas alguns minutos, suficientes para ele perguntar por toda a família e para eu contar que estou trabalhando na secretaria de cultura do estado. "Não consigo imaginar", ele me disse. "Na minha cabeça você ainda é uma garotinha de 14, 15 anos". Foi a última vez que nos vimos. Comentei que em julho de 2009 me formo. Ele disse que que vem. Quem sabe até lá não nos falamos mais algumas vezes?

sexta-feira, agosto 10, 2007

Sobre balões e amigos


Enquanto decidia se escrevia sobre a coisa estranha que sentira enquanto estava no shopping ou sobre a distância repentina que sentia de pessoas próximas, lixava as unhas e escutava suas músicas preferidas (as melancólicas, que sempre tocam no momento mais inconsolável do filme).

A questão é que fora passear no shopping e, no meio da escada rolante, olhou para uns balões no andar superior e desvendou o mistério da vida. Eram balões metálicos, em forma de golfinho ou algum personagem de desenho animado. Apenas flutuavam estáticos, presos por uma corda. A escada no meio do nada, os balões sorrindo e as pessoas vivendo.

A outra questão era que não reconhecia mais ninguém. Sentia-se distante o tempo todo. E sempre que chegava naquele prédio, que foi o começo da parte mais interessante de sua história, sentia vontade de voltar no tempo, ou simplesmente sair correndo. Não é que não visse mais ninguém. Mas não sabia explicar. Agora apenas ia lá e não entendia mais para quê.

Por fim decidiu não escrever sobre nada. Terminou de lixar as unhas e continuou ouvindo as mesmas músicas, enquanto tentava fazer o que faziam as pessoas e os balões: viver e sorrir.

quinta-feira, agosto 02, 2007

Insônia


Tinha medo daquela hora em que todas as luzes se apagavam e toda a rua ficava silenciosa. Era como se, de repente, alguém falasse: hora de dormir! E por isso ela não conseguia. E ficava acordada (como quando se é criança e alguém te manda ficar sentado, e só de pirraça você levanta). Então apagava a luz. Acendia de novo. Colocava uma música pra tocar. Desligava. Bebia água. Contava carneirinhos - eles sempre batiam a cabeça na cerca, e se pulassem mais alto, a cerca aumentava de tamanho. Virava para um lado. Para o outro. Abria a cortina. Fechava a janela.

Por descuido, adormecia. Mas depois de alguns minutos de sono, era como se lhe faltasse ar. E acordava assustada. Ou então tinha pesadelos. Nunca lembrava exatamente o quê. Mas acordava assustada. E quando tentava adormecer mais uma vez... Mais uma vez o ar lhe faltava.

Então, depois de uma longa batalha contra a noite e o silêncio, quando finalmente conseguia dormir em paz, o sol mostrava que ia nascer, e era de acordar...

sábado, junho 30, 2007

Quanto mais simplicidade...


Coisas que a gente lê e precisa dividir com o mundo:

Pegava Eduardo pelo braço, levava-o para o banheiro. Seu rádio, pequeno e barato, só funcionava no banheiro, em cima do aparelho sanitário. Sem se preocupar em descobrir a razão, o velho escutava música sentado no bidê.

- Deve ser por causa do encanamento que serve de antena - explicou-lhe Eduardo um dia.

O velho Germano fitou-o longamente, desligou o rádio, levou-o para fora do banheiro.

- Por isso é que você não vai para a frente, meu filho. Entende as coisas demais, quer encontrar explicação para tudo. Era tão simpático da parte dele, só tocando onde bem entendesse. Então minha privadinha é uma antena? Você criou um problema para mim.

-Me desculpe.


(In: SABINO. Fernando. O encontro marcado. Rio de Janeiro: Record. 2007. pg. 182)